Palmito

Desejei palmito.

Minha dieta hedonista me permitiu comprar uma empada para satisfazer o desejo latente. Só que tinha uma azeitona no meio da mordida e um caroço no meio da azeitona. O gosto que fica é o da mordida interrompida pelo caroço.

No dia seguinte, minha irmã sangrou. Tive uma dúvida e duas certezas. Também apareceu uma parede grande e chorei por um dia e meio. Aí eu encontrei a escada e deu pra ver o que tinha do outro lado.

Tive dois sustos, um em cada semana, e perdi dois quilos, um em cada mês.

Mas você continuou aqui, firme e forte.

E eu estou uma metonímia deliciosa. Olham primeiro pra uma parte de mim, procurando por você, para depois me encontrarem.

Suficiência

Ele me disse que eu era o motivo de toda sua insatisfação com o mundo.

Eu perguntei por quê.

Ele respondeu que eu não lhe dera tempo suficiente.

Mas como não? O tempo foi suficiente pra todo mundo e eu, muitíssimo generosa, ainda te dei mais trinta segundos.

Bem, na verdade o problema era espaço… sabe, nenhum deles me deu espaço!

Uai, mas olha aqui! E aqui! Aqui tem um espação em branco. Time is over. Agora vamos fazer uma fila.

Vi Rafael deitado no chão chorando baixinho. Aos quatro anos e três meses de existência pouco concreta ele chorava bem baixinho, quase como se não quisesse que ninguém escutasse. Talvez ela escute se eu chorar bem baixinho.

Como eu queria que você soubesse por que Rafael chora.

Léa

Não tem hora boa pra morrer. Não tem hora boa pra dizer que alguém amado morreu. Certamente, por telefone enquanto eu esperava o ônibus sair da rodoviária não era uma hora boa. Fui cena de filme.

Nós nos amávamos. Ela foi família escolhida. Me deu morangos quando criança e me deu um cupido de ouro quando moça. Me deu uma pérola barroca. Me deu uma lupa. 

O marido dela me deu meu nome. Eles se amavam. Ela arrancou todos os dentes quando soube que era traída. Estava grávida da filha mais nova, eram doze no total e ela viu dois morrerem. Foi louca por anos.

Eu ia visitar a vó para brincar na cadeira de balanço, para ver o braço de hemodiálise do vô e para mexer na mesa de pedra cheia de papéis e contas e calculadoras enormes. Depois que ele morreu e eu cresci, ia visitar a vó para saber o que acontecia na cabeça dela.

Ela me ensinou o que é ser sagitariana. “Nós, de sagitário, não somos fáceis. Não somos. Tem dias que você não se aguenta. A gente sente muito tudo, minha filha”. 

Ela acreditava em vidas passadas e acreditava que eu era família dela em outra vida. Eu acredito nela. 

O vazio é

Eu só percebo que o barulho era caótico quando este de repente se cala e o silêncio me engole. Só entendo que o que sentia era fome quando meu estômago revira e minha boca saliva ao olfato do cheiro de comida sendo preparada e servida à mesa. Só sei que minha respiração estava curta, quase inexistente, quando eu suspiro um suspiro que precisa inspirar todo o oxigênio do quarto.
Sinto o nada quando alguma coisa vem para interferir. O vazio existe, ele é, ele significa. Está aqui, lá, o tempo todo, mas é grande e invisível demais para que eu o percebesse. Tão enorme que ocupava o quarto inteiro. E é isso o que enche meus pulmões.